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Um Auto-Diagnóstico dos Laboratórios Clínicos
Luiz Roberto Del Porto
O setor de análises clínicas (ou patologia clínica) nacional, passa pela sua talvez pior crise em toda existência. Isto é fato. Cabe, portanto, uma análise de todo o setor para, então, encontrar uma saída (ou pelo menos uma luz no fim do túnel).
Inicialmente, devemos, numa fase pré-analítica, fazer uma acurada anamnese com todo o setor para iniciarmos esta busca. Voltemos no tempo e vejamos como se comportou o mundo nesta última década e como se portou o mercado laboratorial. Uma palavra basta: "globalização", ou seja, o mundo ficou menor e isto melhorou a vida do ser humano de sobremaneira, mas será que a mentalidade do mercado globalizou-se? Em parte sim, com a facilidade de incorporarem-se novas e melhores tecnologias ao setor, com a chegada dos inúmeros auto-analisadores e por aí adiante. Sem dúvida alguma, saltamos do artesanal ao automatizado num curto espaço de tempo, o que foi muito bom ao setor como um todo.
O que não mudou nesta última década foi a mentalidade daqueles que compõe o mercado. Em nossa graduação, seja no curso de farmácia, medicina ou biomedicina, não nos ensinaram a raciocinar como empresários. Sequer aprendemos a calcular o custo/efetividade de uma glicemia. Aí está a primeira falha: a maioria de nossas administrações não é profissionalizada, e sim amadoras no que diz respeito à gestão empresarial. Portanto, arrisco-me a propor a inclusão de disciplinas como gestão de custos, pessoas e sistemas em nossas grades curriculares da graduação. Aprendamos a calcular corretamente nossos custos, aplicando aí todas as variáveis inerentes ao ato de coletar, realizar e liberar um exame. Saibamos como analisar o viés de um mercado, antecipando ações preventivas e evitando, assim, as correções futuras.
Voltando ao fenômeno da globalização, como disse anteriormente, novas e melhores tecnologias foram incorporando-se ao dia-a-dia dos laboratórios, mas esquecemos de um pequeno detalhe: a tecnologia foi incorporada, portanto os custos para a realização dos exames também foram elevados, uma vez que houve uma significante agregação de custos aos mesmos; custos estes em sua maioria cotados em dólar. Mais uma vez nossas cabeças não raciocinaram da maneira correta. Até 1999, esta falha de raciocínio não afetava tanto os laboratórios, uma vez que o real apresentava certa paridade em relação ao dólar. Esquecemos que houve agregação de valores aos custos dos exames, majorando os preços dos mesmos. Nossos compradores de serviços, que não tem nenhuma dificuldade em tratar de custos, ficaram calados em relação a isto. Atitude correta a deles, uma vez que competia a nós solicitar prontamente a merecida majoração dos preços dos exames. Estamos agora arcando com o ônus desta omissão. Talvez se nossas administrações fossem mais profissionalizadas nós não estaríamos passando por esta delicada situação.
Passemos então à fase analítica deste texto, propriamente dita, iniciando-se por uma avaliação instantânea do mercado no presente momento. Devemos, primeiramente, focar o relacionamento laboratórios x compradores de serviços (leiam-se operadoras de saúde e SUS): quem comanda este relacionamento, são os compradores de serviços, ainda que, quem execute todo o trabalho sejam os laboratórios clínicos (no que diz respeito às Análises Clínicas), quem impõe as regras do jogo é, como sempre, o lado mais forte, ou seja, quem comanda tal relacionamento. Basta verificar os índices de reajustes concedidos aos laboratórios nos últimos onze anos, ou seja, nulo. Mas há ainda um fator agravante neste contexto, que é a redução no valor dos exames por parte de muitas operadoras de saúde, buscando o saneamento financeiro delas às custas da falência daqueles que realizam os serviços. Como se tal medida já não fosse inaceitável, existem ainda laboratórios aceitando e trabalhando pelos preços impostos pelas operadoras. A estes empresários, me resta apenas duas opções: ou são extremamente competentes, conseguindo otimizar seus laboratórios, enxugando gastos desnecessários, ou são verdadeiros mágicos laboratoriais.
É certo que mágicos não são, pois nossa atividade não tem nada de circense, resta então ver a realidade destes laboratórios: eles estão diminuindo, cada vez mais a qualidade de seus exames, o que leva a um preocupante quadro, pois há a elevação do risco de errar um teste, nunca esquecendo-nos que nosso produto é a vida humana. Não é de se estranhar que, cada vez mais, cresçam os números de ações judiciais contra laboratórios por erros causados a outrem. Há que se avaliar até quanto vale pagar por este risco e quão delicado é ver-se diante de uma ação civil ou criminal por um erro causado pela diminuição consciente da qualidade de nossos serviços. É neste ponto que muitos preferem fechar suas portas e tentar outra coisa na vida.
Há também o relacionamento entre os laboratórios e o SUS. Neste ponto vale uma reflexão: Não é este governo que foi eleito e reeleito com o intuito de melhorar a vida do brasileiro, principalmente com ações sociais em prol da população? Será a saúde pública prioritária neste governo? Indo ao último reajuste das tabelas de preços praticados pelo SUS, podemos aferir o quão se preocupa o Ministério da Saúde com o setor de análises clínicas. Zero por cento de reajuste, em uma tabela deflacionada ainda pela extinta "U.R.V." é o máximo de ignorância por um setor que um órgão público pode apresentar.
Outro relacionamento muito interessante é o entre os laboratórios clínicos e os ditos "laboratórios de apoio". Estes são, em parte, conseqüência da globalização e das facilidades de acesso às novas tecnologias, aliado a uma agilidade em captar o viés mercadológico de um momento e um eficiente serviço de logística para atender às demandas. Ocorre que o conceito de laboratórios de apoio deveria ser revisto e até regulamentado corretamente, pois, na verdade, muitos destes "apoiadores", nada mais são do que laboratórios que cresceram, incorporaram tecnologia e possuem capacidade operacional ociosa, mas, em sua formação básica, não possuem as características inerentes ao setor, tais como competência, senso crítico apurado, quadro profissional formado por especialistas nas várias divisões laboratoriais, como bacteriologia, hematologia, biologia molecular dentre outras, a fim de servirem como consultores quando há uma dúvida por parte do "apoiado", e em cumprir os prazos estipulados, enfim, prestar um serviço de apoio efetivamente e não virtualmente.
O relacionamento entre apoiado e apoiador deveria ser estreito, criando verdadeiramente uma parceria entre ambos. Não cabe mais, hoje em dia, um laboratório de apoio simplesmente resumir seu relacionamento com o laboratório apoiado no ato de realizar os exames enviados. Mesmo porque, caso o apoiado naufrague, o apoiador além de perder um cliente, certamente acabará arcando com o ônus da inadimplência.
Há também alguns casos de laboratórios de apoio que acabam abrindo suas portas em outros municípios, tornando-se, assim, concorrentes de seus próprios clientes. Como estes laboratórios conseguem obter custos mais baixos, estes podem ser repassados aos clientes finais, o que não pode ser repetido pelos laboratórios locais, criando, assim, sérios problemas de ordem financeira aos mesmos. Atos como estes, quando ocorrerem, devem ser tornados públicos e estes laboratórios ditos "de apoio", execrados por todo mercado laboratorial.
Os fornecedores de insumos dos laboratórios são outra parte nesta cadeia produtiva que tem buscado adeqüar-se a triste realidade que vive a maioria de seus clientes. É sabido que eles repassam seus custos ao preço final do produto, mas, certamente se este repasse fosse integral, inviabilizaria ainda mais muitos serviços. Há que se lembrar que este setor está muito bem organizado, principalmente através da Câmara Brasileira de Diagnóstico Laboratorial e de outras associações afim, o quê é direito destes empresários. Finalmente, há o relacionamento entre os laboratórios e o governo, através de uma política onde novamente somos esquecidos e lembrados, quando pertinente (a eles). A carga tributária que incide sobre os serviços é aviltante, obrigando muitos a sonegarem seus impostos e correrem sérios riscos por tais atos ilícitos. O volume de impostos é tão exagerado, que abriu espaço para a criação de um novo mercado, que são os escritórios de advocacia que oferecem serviços de consultoria e redução de vários tributos, dentre eles o PIS e o COFINS.
E não devemos nos esquecer das legislações que regulamentam (muitas vezes em excesso) o setor. Há vários casos de redundância de leis, decretos, portarias, normas e outros Instrumentos Legais impostos pelos órgãos competentes.
Partindo para uma análise pós-analítica, chegamos a algumas conclusões: 1ª. Por ser um setor pluri-profissional, as análises e patologia clínica sofrem com a falta de união do setor. 2ª. O diálogo entre as Sociedades Científicas é praticamente inexistente. 3ª. Ao laboratório não cabe nenhuma capacidade de controle de seus preços e custos, uma vez que os preços pagos são sempre impostos e nunca negociados. 4ª. Não há uma efetiva liderança no setor.5ª. Não há comunicação eficaz entre laboratórios, entidades e governo. 6ª. As gestões da maioria dos laboratórios ainda são artesanais e obsoletas.
Diante disto, apresentamos as seguintes propostas: 1ª. Criação de uma "Frente Única" em prol dos laboratórios clínicos, capitaneada por pessoas detentoras de avais dos Conselhos Profissionais, Sociedades Científicas, Associações e Sindicatos. 2ª. Amplo diálogo entre as Sociedades Científicas e também entre os Conselhos Profissionais, além dos sindicatos. 3ª. Adoção, por parte de compradores e prestadores de serviços da Classificação Brasileira Hierarquizada de Procedimentos Médicos da Associação Médica Brasileira ou outro instrumento que possa substituí-la. 4ª. Estímulo e apoio à formação de Associações e Cooperativas de laboratórios. 5ª. Punições exemplares aos maus profissionais.6ª. Obrigatoriedade dos compradores de serviços em repassar aos seus prestadores, seus reajustes obtidos. 7ª. Criação de uma Tabela de Preços Éticos Mínimos para Laboratórios Clínicos.
Certamente esta visão apresentada acima pode apresentar falhas e imperfeições, sendo pertinente de correções, mas é uma tentativa de sensibilizar a todos pela extrema urgência em realizar ações práticas e pontuais, com o intuito de manter este importante setor da medicina vivo e forte. O importante é que todos participem! Luiz Roberto Del Porto Farmacêutico BioquímicoEspecialista em Análises Clínicas pela F.C.F.U.S.P. e UNIMEPDiretor-Presidente da ALAC - Associação de Laboratórios Clínicos Ex-Vice-Presidente da Sociedade Brasileira de Análises Clínicas - Regional São Paulo
Ex-Coordenador e membro da Comissão Assessora de Análises Clínicas e Toxicológicas do CRF-SP
Coordenador da Seccional de Jundiaí do CRF-SP |